O ano do feat: Por que há mais parcerias do que nunca entre as músicas mais ouvidas do Brasil?

Não é só impressão: você está mesmo ouvindo mais músicas com duas vozes. Ou três, ou quatro. O tal feat (abreviação de featuring, termo usado para indicar uma parceria musical) virou regra no mercado.

Levantamento feito pelo site G1 com base em listas de músicas mais populares nas rádios brasileiras desde 2000 mostra que 2018 tem, até agora, número recorde de gravações do tipo entre as 100 mais tocadas.

Entre janeiro e julho, 32 feats apareceram no top 100 das rádios, segundo o monitoramento da Crowley.

Antes de 2018 e 2017 (com 28 parcerias), o pico de feats entre as mais ouvidas das rádios havia sido em 2013 – ano em que a extinta banda Pollo emplacou em terceiro lugar sua “Vagalumes”, com participação de Ivo Mozart.

No Spotify, que divulga dados semanais, o número sobe para 41 parcerias entre as 100 músicas mais ouvidas entre 17 e 23 de agosto, período mais recente registrado pela plataforma.

Dados da Playax, empresa que analisa a audiência de música, mostram que, desde 2016, cresceu na internet o número de reproduções de faixas com participações. O pico foi em dezembro do ano passado, quando plays de feats representaram 35,6% do total.

Três fatores ajudam a explicar o fenômeno, avalia a gerente de artístico e repertório da gravadora Som Livre, Tatiana Cantinho:

  • A flexibilidade no calendário de lançamentos, gerada pelo enfraquecimento do CD
  • A necessidade de ampliar a visibilidade de um artista para além de seu gênero
  • A diluição das “tribos” musicais, que antes ditavam a indústria

Lançar faixas com foco no maior número de playlists possível foi uma dessas adaptações. As listas on-line de músicas ou clipes, muitas vezes divididas por gênero, viraram filão lucrativo da indústria. Músicos chegam a pagar para incluir seus vídeos em algumas das mais populares.

Um feat aumenta as chances de uma música entrar em mais playlists. A mistura de funk e sertanejo, por exemplo, pode entrar em listas dedicadas aos dois estilos.

Como nasce um feat?

Funcionou mais ou menos assim com “Fica tudo bem”, dueto deste ano entre Silva, promessa da MPB eletrônica, e Anitta. “Ela, com toda sua força midiática, popularizou a MPB de nicho do Silva”, exemplifica a gerente da Som Livre.

Anitta não aceita qualquer parceria. “Você tem que saber o motivo de estar fazendo aquele featuring. Acho errado fazer feat só para ter grandes números”, disse, em junho.

“Fica tudo bem” partiu de uma vontade de Silva, mas foi negociada entre a Som Livre, gravadora do cantor, e a Warner, de Anitta, segundo Cantinho. A próxima aposta da empresa é uma parceria prevista para setembro com Luan Santana e Jorge e Mateus, todos artistas de seu casting.

Um dos produtores mais requisitados do sertanejo, Eduardo Pepato diz que, embora não haja ampla vantagem, a maior parte dos feats surgem hoje por interesse comercial, mediados por gravadoras ou empresários. Em alguns casos, envolvem cantores que nem mesmo se conhecem.

“Normalmente, esse tipo de parceria não dá certo”, explica. Para ele, o aumento da frequência de negociações como essas gera desgaste sobre os cantores.

Por que o sertanejo é líder?

Nas rádios, a maioria esmagadora dos feats no top 100 tem sertanejos com cantores do mesmo gênero – são 22, entre as 32 músicas na lista. “O sertanejo criou a força que tem hoje por causa das parcerias”, afirma Pepato.

“Desde o início, o gênero sempre teve a cultura da roda de viola. A mistura de vozes está na sua essência.”

O ritmo soube trabalhar o formato melhor do que qualquer outro. “Dentro do mercado sertanejo, artistas de um mesmo escritório acabam se unindo. E, muitas vezes, os artistas mais novos recebem ajuda dos maiores na divulgação”, diz Cantinho.

Outros gêneros reconhecem isso. Yuri Martins, produtor de funk que já trabalhou em parcerias com o sertanejo Lucas Lucco, acredita que “o funk tem que aprender com o sertanejo sobre como se organizar”.

O que vem pela frente?

Com a intransponível barreira das parcerias entre sertanejos e todas as possibilidades de mistura com funk já exploradas, o que pode surgir de novo em termos de feat?

O pagode pode ser um novo queridinho. “Está se fortalecendo muito o consumo do gênero nas plataformas de streaming”, afirma Cantinho. Pepato já produziu parcerias de Marília Mendonça com Péricles e Ferrugem e de Henrique e Juliano com Sorriso Maroto.

E há a onda dos solitários. Zé Neto e Cristiano, hoje artistas mais ouvidos do YouTube no Brasil, curiosamente quase não se misturam. Cristiano é direto: “Nada contra, mas não é o que queremos.”

Matéria: Carol Prado, G1

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